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MANUELZÃO
Foto: www.tresmarias-mg.com.br
Manuel Nardi, nascido a 6 de julho de
1904 em Dom Silvério - MG, teve 7 filhos com a primeira esposa e 1 filha com a segunda
esposa Diralda Alves Nardi (Dª. Didi) como é carinhosamente conhecida, com quem viveu
seus últimos 40 anos, sua morte ocorreu em 05 de maio de 1997, em Andrequicé, distrito
de Três Marias - MG.
Uma frase que Manuelzão deixou marcada: "Eu não tenho medo da morte porque sei que
vou morrer; tenho medo do amor falso, que mata sem Deus querer".
Como um vaqueiro aposentado pelo Funrural se tornou personalidade brasileira? Será que
Guimarães Rosa o reverenciou por acaso, e bastou isto para torná-lo assim notável? Que
característica de personalidade poderiam sustentar o espaço na mídia naiconal, a
simpatia popular e explicar a qualidade do funeral de um homem sem dinheiro e sem diploma?
Memória ímpar e prosa fina, espírito de independência e coragem, desapego à
estabilidade para receber bem e contar causos a quem o procurasse, independentemente de
idade e condição social, são alguns ingredientes de sua personalidade que Manuel Nardy
trabalhou com inteligência. Estas características do homem, porém, ainda não são
suficientes para explicar o mito Manuelzão. Representaria a saudade do mundo rural que se
foi, com seus valores e recordações?
Representaria a imagem do patriarca para um povo carente? Representaria o sucesso do
brasileiro comum, que pega no pesado e surpreende com suas façanhas? Seria o Quixote do
sertão brasileiro? Via seu sucesso com ironia e uma ponta de orgulho: "Estão
gastando muito papel com um simples vaqueiro". E filosofava: "Este mundo é
coisa muito bem feita. Cheguei onde ninguém imaginava. Parece que tenho um ímã".
Submetido a uma cirurgia de estômago, octogenário, respondeu ao temor do jornalista:
"Não tenho medo da morte porque sei que vou morrer; tenho medo do amor falso que
mata sem Deus querer". Ainda sobre sua morte, dizia que todo mundo tem a sua hora.
"Não adianta, se não chegou a hora a pessoa escapa do tiro e até de acidente de
avião: mas quando chega, até um passarinho que voa assusta o sujeito, que desequilibra,
bate a cabeça e morre. Mas podia ser uma casca de banana ou um estrepe"...
Sua personalidade pública fê-lo acolhedor como nos ermos é a sombra límpida de vereda.
Não se preocupava em ganhar dinheiro com sua imagem. Dizia: "Não sou soberbo: se
derem, recebo e agradeço. Se não, é mais um amigo que tenho". Foi uma existência
que valorizou o viver. Tornou-se arquétipo da alma popular. Presidentes, governadores,
PhDs e desembargadores não têm seu prestígio nem terão a qualidade de sua vida e do
seu enterro. Realizou o desejo do escritor argentino Jorge Luís Borges, que ao fim
lamentou não ter curtido mais a vida. Nunca teve pretensões a santo, mas ao passar pelas
ruas de Três Marias apoiado no cajado, sustentando encurvado suas longas barbas brancas,
como cometa a cauda, as pessoas exclamavam: "O Manuelzão está passando". Falar
mal dele virou sacrilégio: a imortalidade o alcançou vivo no sertão. Este fenômeno vem
encantando.
(Jornal Manuelzão Jan/Fev/99) |
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