|
Há 451 anos, em 29 de março de 1549, chegava à
enseada do Porto da Barra a frota que conduzia Thomé de Souza e os que, com ele, vinham
fundar a Cidade do Salvador.
A cidade, que foi a Capital do Império Português na América e a Capital do Atlântico
Sul, não é assim o resultado da evolução de um grupo vicinal às categorias de
povoado, vila e, finalmente, cidade. Já nasceu com todas às prerrogativas de sede de
governo, local de decisões políticas e administrativas.
Com Thomé de Souza ( que acumulava o título de Governador, o de Capitão desta capitania
que fora doada a Francisco Pereira Coutinho e revertera ao domínio pleno da Coroa )
chegaram cerca de mil homens - entre voluntários, marinheiros, degredados, soldados, e
sacerdotes. Este grupo, mais a tripulação da nau de um certo Gramatão Teles, que viera
dar notícias da Fundação decidida em Lisboa, somado ao que restava da Vila do Pereira,
fundada treze anos antes pelo donatário e mantida pela liderança do
"Caramuru", e que implanta a cidade e lhe dá vida.
Apesar de fundada em 1549, noventa e seis anos depois da data que livros didáticos
convencionaram como sendo a do fim da Idade Média, a Cidade do Salvador ainda foi
influenciada por muitos e muitos fatores medievais na escolha do sítio do seu núcleo
inicial e no sistema de defesa que nele se desenvolveu.
Os planos discutidos na metrópole e aqui implementados pelo "mestre de risco e
pedraria" que foi Luis Dias, determinavam, basicamente, a construção de uma
"fortaleza grande e forte". A preocupação com a defesa superava todas as
outras. A habitação e a circulação ficavam em segundo plano, subordinadas aos
propósitos de segurança militar para a "cabeça da colônia do Brasil" e para
as frotas que buscavam abrigo da baía de Todos os Santos nas suas rotas para o Oriente,
seja pelo caminho do Cabo da Boa Esperança, seja pela rota do Pacífico, contornando o
extremo sul da América.
Foram estas idéias que determinaram a escolha do ponto mais alto da costa em torno do
golfo, para nele situar a cidade. Preferiu-se o local que oferecia maiores facilidades
naturais à defesa, tanto dos possíveis ataques pelo mar, quanto das investidas dos
índios agredidos com os novos fatos da presença colonizadora.
Limitou-se a cidade, ao sul, pela porta de Santa Luzia, no sítio onde, atualmente, a rua
Chile encontra-se com a Praça Castro Alves. Ali, a escarpa natural, hoje desaparecida com
as muralhas do próprio largo e as das ladeiras da Conceição e da Montanha, compunha a
defesa em acidente natural que se estendia por toda a face oeste desse núcleo básico - a
"montanha da cidade".
Pela face leste, uma escarpa de menor porte, uma barroca pequena - e por isto Barroquinha
- também apoiava a defesa em sistema integrado com a "vala na cidade", curso
d'água nascente onde se fizeram as Hortas de São Bento, no local do primeiro matadouro
que por lançar ali os seus restos batizou o curso de Rio das Tripas.
O limite norte da cidade, conquanto tenha apresentado alguns pontos de controvérsias
entre historiadores, ficou perfeitamente definido em pesquisas e interpretações mais
recentes. Esteve, ainda que por breve tempo, na porta de Santa Catarina, no limite atual
entre a Praça Municipal e a Rua da Misericórdia, junto da esquina com a Ladeira da
Praça. Daí foi logo avançando para a atual face esquerda do Palácio Arquiepiscopal,
onde bem mais tarde foi levado para o meio do declive, hoje ocupado pelo Largo do
Pelourinho, onde podem ser encontrados restos da muralha fortificada.
A conjuntura que inspirou a fundação da Cidade do Salvador e sua locação neste ponto
da costa do Brasil foram elementos básicos do traçado do seu destino. Ainda hoje, quem
nela habita está, naturalmente, vinculado àquelas opções.
Hão de ser especificamente referidos os jesuitas da primeira leva e os Oficiais do Senado
da Câmara.
Quando D. João III iniciou o trabalho de por ordem e dar rentabilidade ao império que
alcança a sua maior amplitude no reinado anterior de D. Manoel, cuidou de se prover de
respaldo religioso para as terras do Brasil, da África e da Índia. As ordens que vinham
da Idade Média, apoiados em uma visão contemplativa da Fé, já tinham dado o melhor da
sua presença. Surgia àquele tempo uma nova visão catequética, criada por Inácio de
Loiola: a Companhia de Jesus. Nela, o rei de Portugal buscou homens para mandar ao
ultramar.
De início, lhe foram dados os padres Francisco Xavier e Simão Rodrigues. O primeiro,
logo viajando para o Oriente, seria o Apóstolo das Índias, com marcada presença em Goa
e no Japão. O segundo organizou a "assistência" de Portugal, e a ele se deve o
recrutamento e o envio do Padre Manoel da Nóbrega chefiando os jesuitas que vieram na
armada da fundação.
Saltando na Barra e exercendo os primeiros ministérios na "maneira de igreja"
que já encontraram em devoção a Nossa Senhora da Graça, os inacianos foram dos
primeiros a se transferirem para cidade que se fundava e, certamente, os responsáveis
pela fisionomia da sua face setentrional, com a locação do seu colégio e da sua igreja.
A eles coube não só o trabalho de pregação, como todo o aparelho pedagógico da
colônia, aspecto em que exerceram o monopólio até a expulsão de 1759.
O Senado da Câmara, ou seja, os vereadores da cidade merecem, na história destes
primeiros tempos, referência muito destacada e específica.
Em uma estrutura de governo absoluto, quando o rei podia tudo sobre as pessoas e as
coisas, funcionava, paralelamente, um colegiado eleito a que cumpria a administração
civil da cidade. E, mais do que isso: além da vigilância ao bom cumprimento das posturas
que elaborava, ainda lhe era inerente a fiscalização do bom cumprimento dos ofícios dos
servidores do Reino. Ao ponto de ser disposição específica o fato da cadeia pública
ter que funcionar, necessariamente, no mesmo prédio das suas reuniões, como forma direta
e material de colocar, sob permanente vigilância, qualquer possível abuso de autoridade.
Estas atribuições aos vereadores da cidade dão bem a medida da importância do seu
papel naqueles dias iniciais.
Cabe, ainda, uma referência especial à Santa Casa da Misericórdia,ou Casa da Santa
Misericórdia para usar a expressão coeva. O Concílio de Trento ordenando as chamadas
"obras de misericórdia" como que legislou sobre o que, hoje, chamaríamos de
"obrigações previdênciárias" dos estados em que a religião católica era
culto oficial.
O estado português não tinha nem vocação, nem condição para implementar tais
serviços. A instituição das Misericórdias, que vinha do tempo do milagre da rainha
Isabel, era a naturalmente indicada para tais encargos.
Funcionando como polo gregário, agência de prestígio e organização de serviços
públicos, a Misericórdia da Bahia, desde os primeiros dias da fundação da cidade,
desempenhou todos aqueles papéis que a tornaram supletiva da atividade assistêncial de
um poder público que se voltava, fundamentalmente, para a atividade fiscalista destinada
a enriquecer, cada vez mais, um Reino deslumbrado com suas conquistas.
Fora de portas, a "praia" e o caminho do conselho. Na "praia", os
estaleiros onde se faziam e consertavam naus de todos os calados, usando a boa madeira das
matas do vale do Jaguaribe. Na Ribeira dos Galeões, hoje ocupada pelos edifícios de
capitania dos Portos, carpinteiros e calafates, vindo de Portugal e seus aprendizes que se
formam na Bahia fazem urcas, caravelas, patachos e quanto mais tipo de embarcação lhe
fosse encomendado. Na estreita rua, colada ao sopé da montanha, o atestado do caráter
internacional da cidade.
Quando a administração Portuguesa retirou Tomé de Souza do encargo que lhe cometera, a
cidade já estava implantada e, já merecendo que dela se gostasse. Inclusive o próprio
fundador que declara em frase registrada por Frei Vicente do Salvador : "... verdade
é que eu o desejava muito, e me crescia água na boca quando cuidava em ir para Portugal;
mas não sei que é que agora se me seca a boca de tal modo que quero cuspir e não
posso".
|
|